sábado, 12 de outubro de 2013

ORLA DO TEJO, EXEMPLO PARA PORTO ALEGRE

ZERO HORA 13/08/2012 | 08h28

Com restaurantes, bares e cafés, Lisboa transforma as margens do Rio Tejo. Saiba quais locais visitar quando o tempo é curto


A mudança e reforma no porto da cidade começou em 1990, com as obras para a Expo' 98Foto: Pedro Pires / Guia da Cidade


Carlos Etchichury


Uma revolução urbanística ocorre às margens do Rio Tejo, em Lisboa, uma das capitais mais antigas da Europa.

Em menos de duas décadas, galpões obsoletos deram lugar a restaurantes internacionais, bares da moda e cafés sofisticados. Armazéns de entreposto na área portuária, que recebiam cargas de todos os cantos do planeta, agora abrigam boates e casas de espetáculo.

A transformação põe fim ao divórcio da cidade com o principal rio da Península Ibérica. Com cerca de mil quilômetros de extensão, o Tejo nasce a 1.593 metros de altitude, na Serra de Albarracín, na Espanha, onde é conhecido como Tajo, corta os dois países e banha Lisboa, antes de desaguar no Atlântico. Da sua foz, partiram as naus e as caravelas portuguesas para desbravar o mundo. Retornavam trazendo ouro e especiarias, que tornaram Portugal uma das principais potências do globo no século 15.

Mas, no século passado, a decadência da área portuária, o imobilismo político e a ausência de investimentos afastaram os lisboetas do seu rio — um fenômeno familiar aos portoalegrenses, em litígio com o Guaíba desde a cheia de 1944, que inundou o centro da Capital.

— Lisboa era uma cidade de costas para o rio — define Mário Machado, presidente Adjunto de Turismo de Lisboa.

Enclave futurista

A realidade começou a se transformar com as obras para a Expo' 98, nos anos 1990. A partir de um moderno centro de convenções, no limite com a cidade de Loures, surgiu o Parque das Nações. É um enclave moderno em uma Lisboa histórica.

À beira do Tejo, destacam- se duas torres futuristas, erguidas na década passada. São Rafael e São Gabriel, nome de navios cruzadores, os arranha- céus envidraçados, de 110 metros de altura, abrigam apartamentos residenciais.

Uma quadra adiante, um dos maiores oceanários do mundo, com 8 mil animais marinhos, atrai turistas europeus, asiáticos, americanos, africanos e brasileiros — encorajados pelo idioma e potencializados pela força do real, eles representam 10,9% dos 62 milhões de turistas que estiveram em Lisboa em 2011. Bares e um teleférico complementam as atrações na orla.

— A zona nova representa a Lisboa moderna que estamos construindo — destaca Mário Machado.

O renascer

Embora emblemática, a reconciliação da cidade com o rio é mais visível na região portuária. Nas chamadas docas de recreio ( Alcântara, Santo Amaro, Belém e Bom Sucesso, na margem norte do Tejo, abrigam mais de 1,1 mil embarcações), há cerca de 70 estabelecimentos, entre restaurantes, bares, cafés e boates.

— A noite é diversificada, longa e barata. Lá, funciona a discoteca Lux, por exemplo, um dos melhores locais da cidade — avisa João Pires, gerente de um albergue.

Responsável pelo restaurante Doca de Santo, o primeiro estabelecimento aberto em Santo Amaro, em 1995, Gustavo Luciano Inocêncio Alves, 34 anos, sintetiza:

— Aqui, havia armazéns obsoletos, que foram transformados em restaurantes. Houve recuperação e a adaptação para uma estrutura de lazer, que não existia.

No primeiro semestre, a orla revigorada foi roteiro obrigatório dos cerca de 6 milhões de brasileiros que visitaram Lisboa.

Parque das Nações

Após a realização da Expo' 98, toda a área industrial de Lisboa, praticamente desocupada, no limite com a cidade de Loures, transformou- se em um bairro residencial e de lazer. No parque, funciona o shoppingVasco da Gama, o mais moderno da cidade. Um teleférico permite vista panorâmica do Tejo e da região. Ingressos: 3,95 euros ( R$ 9,5, ida) e 6,05 euros ( R$ 14,5, ida e volta). Pessoas com mais de 65 anos ou entre cinco e 14 anos pagam 2 euros ( R$ 4,8, ida) e 3,35 euros ( R$ 8, ida e volta)

Oceanário de Lisboa

Inaugurado para a Expo' 98, cujo tema foi Os Oceanos, o oceanário é um aquário público de referência no mundo. Localizado em dois edifícios conectados por um enorme átrio decorado com um painel de 55 mil azulejos, o oceanário reúne 8 mil peixes — dos tubarões assustadores aos peixinhos coloridos que, de tão delicados, cabem na palma da mão.

Museu dos Coches

Criado em 1906 em uma antiga escola equestre, é o maior museu do gênero no mundo. Há preciosidades como o coche do Rei da Espanha Dom Felipe II, uma espécie de Ferrari da época, utilizado para ir da Espanha para Portugal, durante uma visita ao reinado português. Também fazem parte do acervo três dos 15 coches confeccionados a pedido do Rei Dom JoãoV para presentear o Papa Clemente XI, em 1716.

Mosteiro dos Jerônimos

Patrimônio mundial da Unesco, foi construído no século 15 com dois objetivos: abrigar um mosteiro e ser o panteão da família de Dom Manoel. Em estilo gótico tardio e renascentista, marcado pela influência manuelina, era o templo predileto dos navegadores antes de partirem em direção ao desconhecido.

Na entrada da igreja do mosteiro, que merece uma visita à parte, dois lusitanos ilustres são homenageados: Vasco da Gama e Luís Vaz de Camões, autor de Os Lusíadas.

Praça do Comércio

Uma das mais conhecidas praças europeias, a Praça do Comércio ( também conhecida como Terreiro do Paço) fica à beira do Rio Tejo. Nos prédios históricos, ministérios e repartições públicas deram lugar a áreas de lazer, restaurantes, cafés e bares. No centro da praça, a Estátua de Dom José I montado em um cavalo com as duas patas apontadas para o céu impressiona pela imponência. No entorno, oArco do Triunfo da RuaAugusta, construído após o terremoto de 1755, exemplifica o bom gosto da arte portuguesa.

Centro Histórico

Reconstruída após o terremoto de 1755, que dizimou Lisboa, a parte baixa é marcada pela arquitetura pombalina, caracterizada pela simplicidade e funcionalidade impostas pelo primeiro ministro da época, Marquês do Pombal — responsável pela construção da cidade. É o primeiro sistema antissísmico e o primeiro método de construção em grande escala pré- fabricado no mundo. Construídos fora da cidade, os edifícios eram transportados em peças para serem montados no local, como gigantescos legos. Em menos de duas décadas depois da catástrofe, a população estava alojada.

Onde comer

Em Lisboa, come- se bem e barato. Na Rua dos Douradores, próximo à Praça da Figueira, é possível comer a preços brasileiros. Restaurantes tradicionais oferecem pratos típicos como carapaus ( peixe parecido com sardinha) de Sesimbra ao carvão por 6,80 euros por pessoa ( 9,80 euros para dois). O valor é idêntico se a opção for por pataniscas de bacalhau com arroz ( bolinhas de bacalhau achatadas servidas com arroz com tomate e couve). Um almoço com sobremesa e cerveja sai por cerca de R$ 40.

Não deixe de provar

Nas dependências de Confeitaria de Belém, no bairro de mesmo nome, é possível encontrar turistas de todas as partes do mundo atraídos por um mesmo objetivo: provar o pastel de belém, o doce mais tradicional de Portugal e um dos mais conhecidos da Europa.

Inventado pelos monges do Mosteiro dos Jerônimos, o pastel se tornou popular após a extinção das ordens religiosas, em 1834, quando um monge foi trabalhar na confeitaria. Desde que começou a ser vendida, em 1837, a iguaria se tornou popular em Lisboa. A receita é um segredo mantido a sete chaves. Reza a lenda que apenas três funcionários dominam o processo de produção na pastelaria. A receita só é passada adiante quando um deles morre, para que se perpetue a forma de fazer o doce. Essas pessoas, acredite, têm contratos de confidencialidade e são proibidas de viajar juntas.

A confeitaria abre todos os dias, das 8h à meianoite. São vendidos 20 mil pastéis por dia, ao custo de 0,95 euros ( R$ 2,3).

COMENTÁRIO: 

ZERO HORA 12 de outubro de 2013 | N° 17581 - INFORME ECONÔMICO | MARIA ISABEL HAMMES - Do Leitor. O leitor Larry Beltrame escreveu para comentar a notícia de ontem sobre a novela da revitalização do Cais Mauá

“Acabo de retornar da Europa e, pela primeira vez, visitei Lisboa, uma cidade encantadora. Quanta diferença para a nossa Porto Alegre. Lá são quase 1 milhão de habitantes, quatro linhas de metrô, prédios antigos, iluminados e limpos. A faixa especial para ônibus simples, a pista da direita, ao lado da calçada é exclusiva para coletivos. Detalhe: por estar ao lado da calçada de pedestres, táxis podem circular por ela, afinal é um serviço público. A orla do rio Tejo é uma maravilha, com pista para caminhantes e ciclistas. Bares, restaurantes, espaço para exposições, prédios restaurados e bem conservados, jardins e gramado, crianças brincando, correndo e em segurança. Aqui, esse ranço, atraso e a orla do Guaíba abandonada. Precisamos aprender e muito.

domingo, 8 de abril de 2012

PORTO ALEGRE É A NOSSA CIDADE


BEATRIZ FAGUNDES, O SUL
Porto Alegre, Domingo, 08 de Abril de 2012.


Seria fácil elencar no mínimo dez grandes temas da cidade que estão merecendo mudanças radicais e criativas.

Domingo de Páscoa vem recheado e com cobertura de esperança. É no renascimento do Mestre que nos inspiramos para reforçar a Fé em muitas das nossas certezas, dentre elas lamentavelmente a democracia. Em meio à devastação provocada por centenas de atos de corrupção, falcatruas, traições, nepotismo, formação de quadrilha, incompetência, leniência e tantas outras "qualidades" expostas como verdadeiras fraturas, o modelo sonhado e desejado por muitas gerações vem se fragilizando, desintegrando como uma imagem holográfica.

O ano é eleitoral. Os municípios são a bola da vez. Agora, de acordo com a propaganda oficial, deixamos a função de "patrões" e assumimos um papel power, agora somos "guerreiros". A publicidade denomina nosso voto como arma. Desconheço se pagaram direito autoral para o ex-governador Alceu Collares, que não perde nenhuma chance para declamar o seu famoso poema, cujo refrão "teu voto é tua única arma. Pega tua arma na mão!", já foi ouvido por alguns milhares de gaúchos.

Pois, é. Porto Alegre é a nossa cidade. É a capital do Rio Grande do Sul. Com uma população estimada em 1.410.000 habitantes, pelo Censo de 2010, do IBGE, conta com uma frota de 688.845 veículos, segundo o Departamento Estadual de Trânsito. Ou seja, há um carro para cada 2,04 moradores. Conforme dados do Detran-RS, uma média de 93 carros novos foram emplacados por dia na Capital, em 2010. Como está o trânsito, perguntaria o visitante desatento. O que poderíamos responder? E o transporte coletivo? Pelo que se ouve de reclamações continua no mesmo ritmo de dez anos atrás, e que é incompatível com o aumento da população neste período.

Seria fácil elencar no mínimo dez grandes temas da cidade que estão merecendo mudanças radicais e criativas. Algumas pesquisas já começam a "enfeitar" as capas dos jornais na velha prática do modelo político que todos dizem que deve ser modificado. Se nem os partidos se interessam em apresentar candidatos no primeiro turno preferindo o conforto do acordo com um, dois, três partidos maiores, que podemos dizer do eleitor! Se puder já resolve o entrevero no primeiro turno. Vai daí que apesar de ser um pleito com dois turnos. Antes mesmo da largada já há uma polarização.

Que tal. Entre Fortunati, que não está se reelegendo, já que quem se elegeu há quatro anos foi José Fogaça, e Manuela, a eterna candidata "beleza" jovem cativante. Quem você, "guerreiro" porto-alegrense, irá escolher? Porto Alegre, precisa de tão pouco! Precisa apenas de cuidados básicos, água potável, esgotos saneados, sinalização, transporte coletivo, posto de saúde, escolas com segurança, iluminação e todos os outros detalhes que fazem de qualquer casa ou cidade um lugar agradável para se viver.

Ontem, depois de muuuiitos anos, levei uma criança com menos de três anos no Parquinho da Redenção. Aqueles velhos Austin de 1960 lá estão. Os brinquedos são tão antigos! Emocionantes. Penso que os candidatos deviam andar por aí, como andarilhos, percorrendo nossa Capital como se fosse pela primeira vez, abandonando a arrogância dos partidos que tudo sabem, tudo veem e tudo querem. Porto Alegre precisa de nós! Um olhar sem compromisso revela lacunas lamentáveis. Se somos guerreiros, vamos lutar pela nossa cidade!

sábado, 24 de março de 2012

PORTO ALEGRE, 240 ANOS

MARCELO ROCHA, PROFESSOR DA UNIPAMPA DE SÃO BORJA - ZERO HORA 24/03/2012

Certa vez, em Porto Alegre, o poeta Mario Quintana levou o jornalista e escritor carioca Marques Rebelo a conhecer o nosso pôr do sol. Quintana jactava-se da beleza do espetáculo e Rebelo examinava e ouvia tudo, sempre quieto. Na volta ao Rio de Janeiro, o escritor carioca escreveu: “Eles não têm nada para mostrar e ficam lá falando daquele crepúsculo”. “Que enorme punhalada!”, podemos pensar. Mas, talvez, o escritor carioca tivesse um pouco de razão e o melhor de Porto Alegre seja, até hoje, nosso patrimônio imaterial, isto é, nossas formas de expressão, nossa natureza, cultura e costumes. E, para quem não tenha uma ligação afetiva com a cidade, é quase impossível compreender esta relação.

Como explicar, por exemplo, a satisfação de flanar pela Redenção no domingo de manhã, percorrendo a José Bonifácio, com o chimarrão, e encontrando amigos pelo caminho? De que modo expressar a beleza de jacarandás e ipês que emolduram a paisagem da cidade com seu colorido? Quem resiste a uma caminhada na Lima e Silva, entrando e saindo de cafés, bares, livrarias e dobrando na República? Destas pequenas felicidades é feita Porto Alegre, cidade do amor indizível. Assim como sugere Quintana, o mapa da cidade é como se fosse a anatomia de nosso próprio corpo.

No mapa que podemos examinar, há milhares de pontos de referência. O jornalista Nilo Ruschel descreveu a Rua da Praia, dos anos 40, em memórias de uma cultura afetiva composta por nomes que trabalhavam no Centro, como a Maria Chorona e o João das Balas. Moacyr Scliar, nosso inesquecível imortal, rememorou o Guaíba, como o rio de sua vida e lembrou que ali andava de barco e pescava. Luis Fernando Verissimo, o mestre da crônica, lembra-nos dos mal-entendidos que cercam a cidade. A começar pelo orgulho de um rio – este mesmo Guaíba – que não é rio. Além disso, há uma rua da praia que já não começa e, tampouco, termina em praia. Enfim, uma cidade nada previsível em seus diversos retratos.

Porto Alegre pode ser, também, um porto nada seguro, mas prolífero e militante. Foi palco de resistência na Campanha da Legalidade, com Leonel Brizola, e abrigou na esquina maldita (Osvaldo Aranha com Sarmento Leite) a mais fina estirpe de intelectuais que lutavam por um país democrático, nos anos de chumbo. E, por falar em transgressão, Nei Lisboa cantou a fauna ensandecida do Ocidente cujo comportamento liberal e utópico desafiava os padrões mais conservadores, no final dos anos 70. O próprio Nei é, ao mesmo tempo, um patrimônio e uma metonímia desta cidade de apaixonadas discussões.

Por fim, convido o amigo leitor ou leitora para largar o jornal e dar uma espiadinha pela janela para entender, sob a luz de outono, o encanto desta cidade que escapa de quaisquer definições. Muitos outros retratos da cidade poderiam ter sido referidos. Mas nas ruas que guardam parte de nossa memória afetiva e no mês de seu aniversário, só nos resta, após o “Parabéns”, desejar baixinho, tal como pedia em versos o poeta com quem começamos este singelo texto: “Oh céus de Porto Alegre, como farei para levar-vos para o Céu?”.

AS NARRATIVAS DA CIDADE



CARLOS ANDRÉ MOREIRA, ZERO HORA 24/03/2012

Do triunfalismo orgulhoso do século 19 ao humor ácido do 21, os escritores gaúchos criaram uma Porto Alegre múltipla na literatura ficcional produzida na cidade
Uma cidade não se constrói apenas com pedra e asfalto, mas com representações. Nesse sentido, examinar a maneira co­mo os escritores retrataram a Porto Alegre que na segunda-feira completa 240 anos é também fazer um passeio elíptico pela imagem que a própria Capital faz de si mesma. É também reencontrar, ainda que na imaginação, uma Porto Alegre apenas entrevista nas ruínas urbanas que uma cidade em crescimento constante deixa atrás de si.

As representações urbanas da cidade no século 19 tendem a enfatizar seu caráter de sociedade paroquial, um lugar que, embora grande em comparação às demais do Estado, ainda é uma comunidade de poucos habitantes e ritmo ameno. A concepção da Porto Alegre do século 19 e início do 20 como uma joia da Belle Époque é um clichê recorrente da literatura que se ocupou da cidade, e parece ter origem já nas obras daquele período, como no romance O Perdão de Andradina de Oliveira, uma história de adultério que faz seus personagens passearem pela cidade em 1910, nascente metrópole com seus bondes, confeitarias chiques, fábricas, banda marcial e iluminação elétrica.

Significativamente, Porto Alegre começa a ganhar espaço não só como pano de fundo, mas como cenário ficcional com caráter próprio, em simbiose com seus personagens, a partir dos anos 1930, quando a cidade também passa por um surto de expansão física e modernização urbana e tecnológica. Clarissa, de Erico Verissimo, um dos marcos dessa explosão urbana moderna na literatura do Estado, é de 1933. Os Ratos, de Dyonélio Machado, outro romance inaugural, é de 1935. O mesmo período de meados da década de 1930 é que testemunha a abertura da Avenida Borges de Medeiros e a construção do Viaduto Otávio Rocha – obras públicas de grande envergadura com as quais, lembra a arquiteta Cláudia Pilla Damásio em sua dissertação Porto Alegre na Década de 30: Uma Cidade Idealizada, Uma Cidade Real, a intendência municipal, de inclinação positivista, dedicava-se a um projeto de modernização de Porto Alegre. É o mesmo período em que Erico desenvolverá o seu “Ciclo de Porto Alegre”, inaugurado com Clarissa e encerrado com O Resto é Silêncio, de 1943.

– Embora se contem exemplos anteriores de literatura urbana, não é uma coisa significativa. A figura chave é mesmo a partir daquele momento. No Erico, com Clarissa, a cidade faz parte da experiência dos personagens, o modo como eles agem é condicionado pelos espaços do município em que atuam. A cidade no Erico não é só pano de fundo, é personagem – comenta a professora da UFRGS Regina Zilberman, autora de A Literatura no Rio Grande do Sul.

Erico apresenta uma visão ao mesmo tempo lírica e melancólica da cidade, descrita com a exuberância visual e plástica com que o autor construía os cenários de seus romances. É uma descrição de um autor maravilhado ele próprio com a Porto Alegre que se ergue a seu redor. Como apontou um dos primeiros críticos de Caminhos Cruzados, Dante Costa, a descrição que Erico faz da cidade “é uma espécie de exposição enternecida do quotidiano, com comentários e poesia. Assim como se o autor, de repente, se alçasse sobre a vida, e de uma distância breve, que permitisse a visão geral e também a sinuosidade dos detalhes, nos mostrasse o que acontece”.

Já Dyonélio desce o olhar ao rés-do-chão para flagrar as figuras miúdas esmagadas pelo processo de urbanização. O crescimento de uma cidade capitalista nos moldes modernos exige uma multidão de trabalhadores anônimos engajados em sua construção – homens como o atormentado Naziazeno de Os Ratos. A Porto Alegre que emerge do romance é ao mesmo tempo mais difusa (poucas são as passagens de fato descritivas) e mais crua do que a dos romances de Erico. Como afirma Cláudio Cruz em seu estudo fundamental sobre a literatura do período Literatura e Cidade Moderna, Dyonelio, “sem utilizar-se da descrição tradicional e empregando pequenas e breves indicações, situa firmemente suas ações em espaços bastante representativos da cidade real”.

A elevação da cidade ao protagonismo da ficção gaúcha logo estabelece também as bases para um romance histórico que trate não do mítico passado guerreiro do pampa, mas da própria constituição do espaço urbano. É o que fará Darcy Azambuja em Romance Antigo. Também Luiz Antonio de Assis Brasil se ocupará da Porto Alegre histórica em mais de um romance, particularmente no melancólico Um Quarto de Légua em Quadro, um relato antiépico das origens do povoamento da região, e Cães da Província, mordaz retrato que vai na contramão da autoimagem de uma Porto Alegre “Belle Époque”, como mencionado antes.

Outro autor que, mesmo afastando-se por vezes no tempo e no espaço, tornou Porto Alegre um tema recorrente de sua ficção foi Moacyr Scliar, que pintou a cidade com tons oníricos e humorísticos num bom número de seus romances e contos – mais especialmente A Guerra no Bom Fim, Os Voluntários, Os Mistérios de Porto Alegre, O Centauro no Jardim e O Exército de um Homem Só. Scliar, no entanto, não hesitava quando pensava que deveria desenraizar seu texto do espaço de Porto Alegre para reenraizá-lo em temas bíblicos e no passado da humanidade.

Outros autores contemporâneos de Scliar também farão o mesmo, detonando um processo que pode ser traçado até a atual geração de criadores. Caio Fernando Abreu mergulha suas histórias em uma atmosfera pop que a seu modo rejeita o realismo – e, por tabela, a representação urbana tradicional, ainda que algumas histórias sejam ambientadas em pontos reconhecíveis da cidade. João Gilberto Noll, por sua vez, descreve pouco o ambiente externo em que seus heróis se movimentam. Também desloca com desenvoltura o espaço físico de seus romances – algumas de suas principais e mais aclamadas obras se passam fora de Porto Alegre, como A Fúria do Corpo (no Rio), Harmada (em um país fictício) ou Lorde (em Londres).

Do triunfalismo orgulhoso de Caldre Fião em um romance publicado nos anos 1840 até o sarcasmo de uma recente obra de Adriana Lunardi, Cultura apresenta nesta e nas duas próximas páginas uma breve e incompleta seleta de retratos literários da aniversariante Capital.

sexta-feira, 23 de março de 2012

UMA PORTO ALEGRE QUERIDA QUE MERECE MAIS CUIDADO

Editorial JORNAL DO COMÉRCIO, 23/03/2012



O que dizer para uma cidade que está completando 240 anos? Tudo o que nossos antepassados sabiam. Em 26 de março de 1772 aqui chegaram 60 casais açorianos. Parte desses casais se fixou no Porto de Viamão, depois freguesia de São Francisco do Porto dos Casais, Porto de Viamão, Nossa Senhora da Madre de Deus de Porto Alegre e, em julho de 1773, quando era governador José Marcelino de Figueiredo, recebeu o nome de Porto Alegre. Somos modernos, mas não esquecemos o passado. Pelo contrário, o cultivamos. Tivemos fases de agitação, de ebulição política, de movimentos revolucionários, festas imponentes como a Exposição do Centenário Farroupilha, em 1935, e cujo grande legado foi o Parque Farroupilha, a querida Redenção. Ser porto-alegrense deveria ser sinônimo de felicidade. Afinal, a felicidade não depende do que acontece ao nosso redor, senão do que acontece dentro de nós mesmos. Nesta cidade, a felicidade é medida pelo espírito com que enfrentamos as dificuldades da vida. É que a felicidade é um estado de ânimo, pois não somos felizes até que decidamos sê-lo. Em Porto Alegre, a felicidade não consiste em fazer sempre o que queremos, senão a querer tudo o que fizemos, com alegria e entusiasmo. Os porto-alegrenses não têm uma receita única para serem felizes, pois felicidade não tem receitas. Cada um de nós a cozinha com o tempero de sua preferência. Em cada bairro, em cada rua, em cada caminhada e sempre com o pôr do sol mais lindo do mundo.

No entanto, o que diriam nossos pioneiros do final do século XIX e início do século XX se pudessem revisitar o povoado, a freguesia, a vila e a hoje cidade de Porto Alegre? No aspecto visual teriam, provavelmente, dois sentimentos antagônicos. Primeiro, não acreditariam que aquele acampamento à beira do rio hoje é uma grande cidade.

Não entenderiam os altos edifícios, a correria dos veículos, a pressa das pessoas, o barulho e o tipo de vida absolutamente diferente do bucolismo que se acostumaram. Ficariam estupefatos com a grandeza e o número de habitantes. Simultaneamente, criticariam o mau aspecto e a falta de cuidados quando os porto-alegrenses sujam as ruas. Pichações em prédios públicos e particulares com manuscritos grotescos onde o que importa é emporcalhar sem qualquer sentido.

Nossos avós e bisavós viveram em uma cidade onde o Centro encantava os jovens dos anos de 1930 a 1970 onde todos iam para verem e serem vistos. Tudo passa na vida, mas existe apenas o presente e que, por isso mesmo, se chama presente, afirmam alguns. Mas o presente de hoje será passado amanhã e antecederá o futuro do outro dia. Cidade com 1,4 milhão de habitantes, 700 mil veículos, com muitos espaços vazios e sempre progredindo. Porto Alegre, apesar de alguns problemas, é demais. Acabamos nos apaixonando por ela. Com tantos encantos na zona Sul, na zona Norte, no Centro, no Mercado Público, na Volta do Gasômetro, na Cidade Baixa, na Azenha, Menino Deus, Partenon, Glória e Teresópolis, na querida mas tão maltratada avenida Borges de Medeiros, no Alto da Bronze, no entorno das praças da Alfândega e da Matriz. Uma cidade que depende de seus cidadãos para ser ainda melhor, mais bonita, acolhedora e tranquila, sem tanta violência. Que possamos caminhar despreocupados olhando vitrines, indo a cinemas, jantando fora, visitando amigos. Que não sejamos obrigados a ficar vigiando para todos os lados com medo do perigo à espreita. Nossos filhos e netos merecem, daqui a 20, 30 ou 40 anos, dizer que a Porto Alegre em que estarão vivendo é tão boa quanto falavam seus pais e avós. Depende só de nós.

domingo, 11 de dezembro de 2011

DE VOLTA AO GUAÍBA


A redescoberta das águas. Há décadas desprezada, a orla de Porto Alegre volta a despertar o encantamento de uma época em que o Guaíba era o epicentro da vida gaúcha - ITAMAR MELO, ZERO HORA 11/12/2011

No mês passado, uma faixa de terra à beira do Guaíba, em Eldorado do Sul, recebeu seus dois primeiros moradores. Os médicos Thiago Krieger Bento da Silva, 36 anos, e Ana Paula Zanardo, 33 anos, deixaram para trás um apartamento no bairro Bela Vista, em Porto Alegre, para viver em uma casa debruçada sobre a orla, do outro lado da ponte, em um local onde o concreto da metrópole deixa de ser incômodo para virar cenário.

Pioneiros e ainda solitários habitantes dos condomínios em construção na região, Thiago e Ana Paula são a face de uma reviravolta. Depois de exilar o Guaíba detrás de um muro e passar décadas crescendo para o outro lado, a Capital e seu entorno vivem um momento de reapaixonamento pela orla. Essa redescoberta colocou em movimento um conjunto de empreendimentos que está devolvendo ao Guaíba a condição que ele tradicionalmente teve ao longo da História: a de centro da vida afetiva do Rio Grande do Sul.

Uma pequena mostra de como o passado está se transformando em futuro é o sucesso da linha de catamarã recém-inaugurada entre Porto Alegre e Guaíba. Retomada de um serviço que marcou a cidade quando ela vivia voltada para as águas que a banham, a reedição do transporte fluvial provocou uma revolução no município de Guaíba, que da noite para o dia redescobriu o papel de polo turístico que desempenhava poucas décadas atrás.

Para o corretor de seguros Fernando Ferlini de Araujo, embarcar no novo catamarã foi como entrar em uma máquina do tempo. Durante os 20 minutos de travessia, ele evocou os verões da infância, quando sua família se transferia da residência no centro da Capital para uma casa de veraneio mantida em Guaíba. O trajeto era feito em barcas de convés baixo que enchiam as águas de vida, transportando pessoas e veículos – incluindo ônibus. Viajando agora, porto-alegrenses como o corretor de seguros renovam emoções:

– Usei o catamarã para visitar parentes e senti nostalgia daquela época – conta ele, hoje com 56 anos.

Cais era coração de Porto Alegre

Ainda menino, Araujo viveu os últimos dias do Guaíba como epicentro da vida gaúcha. Estuário para onde corriam rios nascidos em diferentes regiões e ligado ao mar pela Lagoa dos Patos, o Guaíba ofereceu, na época da colonização, as condições geográficas perfeitas para servir de coração econômico e político do Estado. Pariu a Capital e moldou o Estado. Essa condição persistiu até meados do século passado, quando Porto Alegre ainda vivia voltada para seu porto, de onde partiam para outras cidades os vapores de passageiros.

Naquela época, a outra margem era destino turístico. No verão, famílias da Capital faziam a travessia para desfrutar das movimentadas praias de Guaíba. Araujo deixava a residência na Duque de Caxias, no Centro, com a mãe e sete irmãos, para voltar no fim da temporada. A estação das barcas ficava na Vila Assunção. A média era de 2 mil pessoas transportadas por dia. O pai de Araujo, que tinha de trabalhar na Capital, ia e voltava de barca todos os dias. A criançada aproveitava as praias da Alegria e da Florida.

– Na época, essas praias eram o nosso litoral. Eram muito boas e movimentadas, principalmente nos finais de semana. Havia um trapiche que recebia vapores de Porto Alegre – conta o corretor.

Passado meio século, iniciativas como a despoluição das águas, a remodelação da orla entre o Gasômetro e a Zona Sul, além da prometida segunda ponte, somam-se à revitalização do Cais Mauá, prestes a ser iniciada, para conduzir Porto Alegre de volta aos bons tempos. Segundo a arquiteta Maria Isabel Marocco Milanez, professora do UniRitter, vive-se o início de uma mudança.

– Porto Alegre cresceu radialmente, para longe do Guaíba. Agora vai crescer longitudinalmente, ao lado da orla. O que estiver a uma, duas, três ou mesmo quatro quadras dela será zona nobre. Depois da revitalização do cais, o Moinhos de Vento vai descer para o Quarto Distrito – diz a professora, referindo-se, respectivamente, ao bairro que é sinônimo de abastança e a uma zona contígua ao Guaíba conhecida pela degradação.

Espera-se que o principal impacto da revitalização do cais ocorra sobre o bairro onde ele se encontra, o Centro, uma área que já começou a se revalorizar, depois de décadas de declínio, e que deve recuperar a aura elegante dos dias do passado, quando era uma continuação do Guaíba. Para Gilberto Cabeda, da direção do Sindicato da Habitação do Estado (Secovi), o efeito mais benéfico do projeto do cais pode vir das torres de negócios previstas para a área próxima à Rodoviária. Ele acredita que o empreendimento pode induzir investimentos nas imediações, justamente a zona mais desvalorizada do Centro.

– A pessoas querem se instalar perto de outros empreendimentos que sejam bonitos e sofisticados – explica.

Época de ouro - As praias de água doce

Falar de praia, para muitos porto-alegrenses, é evocar as imagens e as águas salgadas do Litoral Norte ou da orla catarinense. Mas nem sempre foi assim. Os moradores da Capital já tiveram as águas do Guaíba como referência para banho, lazer e diversão – tudo isso ao alcance da cidade.

No início do século 20, por exemplo, as praias da Pedra Redonda já eram disputadas para passeios – tanto para quem chegava de barco pelo Guaíba quanto para quem se deslocava em trens do centro da cidade.

A vizinha Ipanema se consolidou como balneário, com casas de veraneio e sedes campestres de clubes, até que nos anos 1950 passou a ser também residencial. Mais para o sul, o Lami abrigava pescadores que – antes da década de 1970, quando a poluição passou a dominar as águas – extraíam do Guaíba o seu sustento.

E não só em Porto Alegre era assim. Muitas famílias faziam questão de garantir seu veraneio do outro lado do Guaíba, na Praia da Alegria, município de Guaíba – na qual as águas eram até mais limpas, atraindo veranistas de temporada ou de fim de semana. Sinal de que o Guaíba e as cidades que o rodeiam podem, sim, viver uma relação cada vez mais próxima.

O balneário da felicidade - Por anos, a Praia da Alegria, em Guaíba, foi um dos locais de veraneio preferidos por porto-alegrenses, que alugavam ou mantinham casas para aproveitar férias ou fins de semana.

Passeio na Zona Sul - No início do século 20, Ipanema ainda era uma região desabitada. Nos fins de semana, moradores de Porto Alegre faziam piqueniques nas praias do bairro da Zona Sul.

Símbolo de uma era - O vão móvel faz da Ponte do Guaíba o ponto mais vistoso da Travessia Régis Bittencourt – que inclui outras três pontes sobre o Delta do Jacuí e foi inaugurado em dezembro de 1958.

Época de ouro - Doca das frutas - Nos anos 1960, antes do Muro da Mauá, a doca onde hoje está o terminal do catamarã era um ponto de turismo e comércio. Além de barcos de passeio, atracavam ali embarcações com frutas.

Outros verões em Ipanema - JANETE DA ROCHA MACHADO, historiadora, pesquisadora da zona sul de Porto Alegre e blogueira do ZH Zona Sul

Em janeiro dos anos 1970, a praia de Ipanema era um local aonde se dirigiam os porto-alegrenses que buscavam amenizar o forte calor. A orla ficava tomada de gente. Lembro-me de que minhas primas tinham por hábito visitar-me – evidentemente, não pelos laços familiares, mas para desfrutar de banhos no Guaíba.

Ainda que as águas já estivessem um pouco poluídas, os banhistas – mirins, como eu – insistiam naquela diversão. Os pais, via de regra, proibiam tal prática – entretanto, nós, ainda crianças, burlávamos a vigilância para aquela brincadeira tão prazerosa que incluía os mergulhos, a coleta de conchas e o bate-papo na areia para secar o corpo ao sol. Numa dessas fugas tão frequentes, fomos apanhados em delito, o que nos rendeu umas boas chineladas e a proibição de sair de casa durante aquele verão.

Anos depois, já na adolescência, a praia de Ipanema reunia todas as tribos. Chamavam-me a atenção as jovens bem postadas em carros conversíveis, como o Puma GTB, ostentando elegantes chapéus e corpos esculturais e bronzeados, minimamente cobertos por tangas, moda originária da Praia de Ipanema do Rio de Janeiro. Usava-se o bronzeador Rayto del sol ou a fabricação caseira – óleo Johnson’s com semente de urucum – para dourar a pele. Ao entardecer, os casais rumavam para a Taba, um ponto de encontro bastante conhecido, para conversas regadas a chope e batatas fritas.

Essas lembranças não trazem apenas saudades, mas a constatação de que há muitos anos não se usufrui o Guaíba e Ipanema como se gostaria. Uma questão a ser discutida pelas autoridades envolvidas com os planos de revitalização da orla e dos bairros da Zona Sul de Porto Alegre.

Margem oposta valorizada

Empresários do setor de construção enxergam um potencial enorme na outra margem do Guaíba, onde há vastas terras desocupadas. A partir da percepção de que o sonho do porto-alegrense é morar como antigamente, em casas junto às águas, a projeção é de que o munícipio vizinho de Eldorado do Sul vire o novo bairro de casas de Porto Alegre.

Um exemplo dessa tendência é o empresário Diderot Menegassi Velloso, 65 anos. Morador de uma cobertura no bairro Bela Vista, ele comprou um lote em Eldorado, e suas filhas adquiriram mais dois. A ideia é que a família toda viva à beira do Guaíba. Antes de se decidir pela mudança, Velloso procurou alternativas na Zona Sul. Não encontrou o que procurava e optou pela outra margem.

– A segunda ponte (do Guaíba) vai sair. É questão de tempo. Além disso, a ponte atual tranca algumas vezes, enquanto as sinaleiras de Porto Alegre trancam sempre – argumenta o empresário.

Quando se mudar, Velloso vai reforçar a vizinhança dos médicos Thiago Krieger Bento da Silva, 36 anos, e Ana Paula Zanardo, 33 anos. O casal já está vivendo na orla. Eles se estabeleceram em um condomínio fechado próximo, o Ilhas Park, que a construtora Beralv prevê entregar em fevereiro. Os médicos se anteciparam e já estão usufruindo da moradia bucólica.

– Na beira do Guaíba, estamos vivendo outra vida. Não tem nem como explicar. A vontade de chegar em casa é outra – diz Ana Paula.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

RANÇO SUPERADO

EDITORIAL ZERO HORA 24/11/2011


O mais significativo do ato de concessão do Cais Mauá à iniciativa privada, assinado ontem pelo governador Tarso Genro na presença do prefeito de Porto Alegre, José Fortunati, foi exatamente o simbolismo da operação. Os gaúchos puderam constatar, finalmente, a superação do ranço histórico e dos obstáculos políticos que impediam a urbanização de uma área nobre do centro da Capital. Quando o poder público não dispõe de recursos para oferecer melhorias para os cidadãos, nada mais lógico que faça parcerias com investidores privados, sempre por meio de contratos transparentes, que preservem o patrimônio público e evitem que a população seja explorada.

A revitalização do cais, que seguirá o modelo do Porto de Barcelona, na Espanha, e de Puerto Madero, na Argentina, custará cerca de R$ 570 milhões. O compromisso da empresa concessionária é transformar aquela zona degradada num complexo de lazer, gastronomia e negócios com potencial para atrair turistas e para se tornar uma referência de modernidade na Capital. De acordo com a previsão do presidente do conselho de administração da empresa Porto Cais Mauá Brasil, que exerceu a mesma função na modernização do porto catalão, o projeto será concluído em quatro anos e toda a cidade vai passar por lá.

Mais importante para o Estado é que o modelo de concessão que parece finalmente estar desencalhando o cais do porto sirva de referencial para outras parcerias entre o poder público e a iniciativa privada. E que o Rio Grande evolua para a superação definitiva da cultura do antagonismo que, há anos, inviabiliza o desenvolvimento do Estado. Está mais do que na hora de se deixar o Gre-Nal para o campo de jogo e de se inaugurar uma nova era de cooperação e crescimento neste canto do Brasil.

O Cais Mauá passa a ser o símbolo da ruptura do muro da intolerância.